Mais de 70 antigos participantes do Festival Eurovisão da Canção, entre artistas, compositores, letristas, dançarinos e outros profissionais, assinaram uma carta-aberta onde apelam a que a União Europeia de Radiodifusão (EBU) e os seus membros, nos quais se inclui a RTP, excluam a emissora pública israelita (KAN) do certame. Salvador Sobral, vencedor da edição de 2017, Paulo de Carvalho (1974 e 1977), Fernando Tordo (1973 e 1977), Lena d’Água (coralista em 1978), ou António Calvário, primeiro artista a representar Portugal na Eurovisão, em 1964, são alguns dos músicos portugueses que subscrevem o apelo.
Na carta, divulgada esta terça-feira (6 de maio) pelo coletivo Artists for Palestine UK e pelo Comité de Solidariedade com a Palestina, acusam a KAN de ser “cúmplice do genocídio de Israel contra os palestinianos em Gaza e do regime de décadas de apartheid e ocupação militar contra todo o povo palestiniano”. Afirmam também que, ao “permitir a representação do Estado israelita”, a EBU, entidade organizadora do festival, “está a normalizar e a branquear os seus crimes”. Afirmando-se “chocados” com o facto de a EBU ter permitido a participação de Israel na edição do ano passado, “enquanto continuava o seu genocídio em Gaza, transmitido em direto para o mundo ver”, pedem medidas iguais às tomadas após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, quando as operadoras russas foram impedidas de participar na Eurovisão. “O silêncio não é opção”,afirma-se no apelo, que reúne artistas de 13 países, tais como Mae Muller (Reino Unido, 2023), Jessy Matador (França, 2010), Hadise (Turquia, 2009), Rykka (Suíça, 2016), Brian Kennedy (Irlanda, 2006) ou Daði Freyr (Islândia, 2021).
“Acredito que o governo israelita cometeu e continua a cometer genocídio contra o povo palestiniano e, por essa razão, Israel deve ser impedido de participar no Festival Eurovisão da Canção deste ano”, afirma Charlie McGettigan, vencedor do concurso pela Irlanda em 1994.
Esta declaração conjunta surge no momento em que o operador público islandês se juntou às congéneres eslovena e espanhola no pedido de uma discussão sobre a permanência de Israel na Eurovisão. Em Portugal, crescem também os apelos a que a RTP pressione a EBU, vindos de grupos solidários com a Palestina, de sindicatos ou de membros da Comissão de Trabalhadores da RTP. GÅTE, a banda que representou a Noruega no ano passado, também subscreveu o manifesto. “Nós estávamos lá. Vimos o que aconteceu”, afirmam. A banda norueguesa foi uma das principais visadas pelos comentadores israelitas da Eurovisão, que insultaram livremente vários concorrentes durante a última edição da Eurovisão, apelidando Olly Alexander de antissemita, os irlandeses de bêbados e violentos, ou a canção portuguesa de ser uma música de casa-de-banho. No caso da banda norueguesa o incentivo à violência atingiu outra gravidade, tendo estes sido chamados de “filhos de Amalek”, uma referência bíblica (já invocada por Benjamin Netanyahu no contexto do genocídio em Gaza) que no contexto israelita é um apelo ao extermínio completo de um povo. Eran Cicurel, editor da secção de notícias internacionais da rádio KAN Reshet Bet, admitiu recentemente que “a Eurovisão é, há muito, mais do que um mero evento musical; é um campo fundamental para a defesa de Israel”.
Neste momento, Israel está a utilizar, assumidamente, a fome como arma de guerra contra milhões de palestinianos, não permitindo a entrada de qualquer alimento ou ajuda humanitária desde o dia 2 de março, havendo já inúmeros relatos de mortes por fome e sede. La Zarra, que representou a França em 2023, escreveu, por ocasião deste apelo, um poema sobre a cúmplicidade da Eurovisão, do qual os promotores partilham esta breve passagem:
“And while Gaza starves and suffocates, the stage is lit. The microphones are tested. The seats are filled. Israel will sing at Eurovision. A state that has reduced an entire people to rubble will be given a global celebration. What is music, if it plays over mass graves? What is unity, if it demands we look away?”
