De Lisboa para Gaza

Um cessar fogo que deixa Gaza à espera que o fogo cesse, em que a França, Grã Bretanha, Egipto, a República Checa e Espanha (em nome da “comunidade internacional”) deram a sua aprovação a Israel pelo trabalho feito, num prato de prata cheio de cinzas.
Antes do ataque, a vida já não era vida no Gueto de Gaza, agora vai-se ver. Ontem à noite os primeiros relatos dos jornalistas da situação em Rafah eram de calamidade. Veremos.
Com o “cessar-fogo”, o trabalho torna-se tão, senão mais, importante como antes. Gaza precisará de ajuda: os Palestinos que sobrevivem têm direito a uma vida normal. O “cessar fogo” tem que acabar com o bloqueio de Gaza. Será ainda uma luta para acabar com o bloqueio e o cerco, além de mais, não há garantia que Israel páre a matança: não vamos deixar a Gaza só nessa luta.
Àqueles e àquelas que foram mobilizados pela crise desta agressão óbvia na sua barbaridade, não se enganem, não se esqueçam dos Palestinos e da Palestina. Este episódio de 23 dias foi um momento numa ocupação que dura 41 anos e a Naqba que já fez 60.

 

 

 

Como diz Eduardo Galleano

 

“Ya poca Palestina queda. Paso a paso, Israel la está borrando del mapa.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De Lisboa para Gaza

 

(no dia de um cessar fogo)

 

 

 

Cercada pelo nevoeiro

 

a minha rua tornou-se cinzenta,

 

tantas gotas nascem da neblina,

 

pontinhas frágeis de luz pegadas

 

aos torcidos ramos das árvores descuradas

 

do jardim que mal sobrevive

 

atrás de um muro antigo

 

decorado com remendos e manchas de musgo –

 

à frente da minha janela,

 

são centenas de lágrimas que brotam,

 

donde virão em breve folhas e flores.

 

Vivo o esplendor do momento e do futuro,

 

sentindo apenas um frio ligeiro nos dedos,

 

enquanto protegido na minha privacidade

 

escrevo sobre bairros modernos,

 

bairros secos e ensolarados,

 

onde chove só fogo e fósforo,

 

onde nasce tanta morte

 

e mal resiste a vida,

 

um cemitério cercado por muros novos,

 

onde verde pode ser a cor de bandeiras

 

mas brancas são sempre as mantas dos defuntos,

 

bairros densos de desgraça, desertos humanos,

 

que terão de aguentar o presente

 

até a Primavera.

 

  

 

alan stolerov

 

18 Jan. 09