A edição de 2024 do Festival Eurovisão da Canção foi a mais caótica, politizada e desagradável da história da competição. A razão é conhecida de todos – a participação da emissora pública israelita (KAN), em pleno genocídio em Gaza, e a cumplicidade da União Europeia de Radiodifusão (EBU).
A falta de responsabilização da EBU e da KAN, com o apoio ou a indiferença dos restantes membros da EBU, está a manchar a reputação da Eurovisão. As “polémicas” e os pedidos de boicote já começaram e garantidamente não se ficarão por aqui.
Por mais que a EBU repita os lugares comuns de que a Eurovisão é um evento não político, a mera presença de Israel na competição, enquanto comete impunemente crimes de guerra e contra a humanidade, é em si mesmo um posicionamento político da EBU, que vincula todos os restantes membros participantes. A RTP não é excepção.
Jornalistas e outros colaboradores da KAN estão igualmente comprometidos com o genocídio em curso na Faixa de Gaza: desde jornalistas-soldados a jornalistas que assinam bombas que irão ser lançadas sobre a população de Gaza; de jornalistas que celebram a destruição de aldeias a jornalistas que celebram a morte de jornalistas palestinianos; os exemplos sucedem-se.
A KAN, tal como qualquer outro órgão de comunicação social em Israel, está também sujeita a censura militar prévia das suas peças. De acordo com a investigadora Guy Lurie, apenas entre outubro e dezembro de 2023, 6,500 peças jornalísticas foram total ou parcialmente censuradas pelo estado israelita, não estando naturalmente contabilizada neste número a auto-censura que Israel espera dos jornalistas. Isso perfaz uma média de 72 artigos censurados por dia durante esse período. Em que medida se coaduna isto com os estatutos da EBU?
Durante a final, a delegação israelita utilizou símbolos políticos e não se coibiu de fazer declarações políticas, nomeadamente dedicatórias ao exército israelita.
A transmissão do evento feita pela KAN não ficou atrás. Os comentadores da emissora israelita insultaram livremente vários concorrentes. Olly Alexander foi apelidado de antissemita, os irlandeses de bêbados e violentos e, no auge da infâmia, chegaram a vociferar o desígnio de se exterminar os concorrentes da Suíça e da Noruega, Nemo e Gåte (na referência a “filhos de Amalek”). Este incitamento à violência levou a delegação norueguesa a reforçar a sua segurança. Também a Iolanda foi injuriada, tendo os comentadores da KAN aconselhado os espectadores a irem à casa de banho durante a atuação da artista portuguesa.
As regras da Eurovisão estipulam que as emissoras participantes “devem assegurar que nenhum concorrente, delegação ou país seja discriminado e/ou ridicularizado de qualquer forma”. A própria EBU confirmou, ainda antes da final, que a emissora israelita tinha violado estas regras e, no entanto, nada fez. Seguros da total impunidade de que gozam, os comentadores da KAN usaram a transmissão da final para, inclusive, escarnecerem das recomendações da EBU.
Um dos comentadores em causa, Akiva Novik, que é também jornalista da KAN, acredita que, em tempos de guerra, o trabalho dos jornalistas é elevar a moral da nação e não o de informar, enquanto outro, Asaf Liberman, é um antigo apresentador da Rádio do Exército.
Politização da Eurovisão
Aquando da última edição da Eurovisão a ter lugar em Israel (2019), o vídeo promocional e muitos dos “postais” (vídeos introdutórios que apresentam os artistas/países participantes) produzidos pela KAN foram filmados em territórios palestinianos e sírios ocupados – incluindo os Montes Golã e Jerusalém Oriental – e apresentados como parte de Israel.
Entre as evidências recentes da politização da Eurovisão por parte de Israel podemos referir a campanha publicitária do voto televisivo de Eden Golan, organizada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel. Tanto a intervenção direta de Isaac Herzog, chefe de Estado israelita, como as recentes declarações de Eran Cicurel, editor da secção de notícias internacionais da rádio KAN Reshet Bet, admitindo que “a Eurovisão é, há muito, mais do que um mero evento musical; é um campo fundamental para a defesa de Israel“, não deixam dúvidas sobre a importância da Eurovisão como palco para a propaganda política do estado israelita.
O programa de seleção nacional para a Eurovisão 2024 foi extensivamente ocupado por propaganda militar. A canção escolhida foi rejeitada por duas vezes pela EBU pela sua mensagem política. Após o festival, a versão original, rejeitada pela EBU, é aquela utilizada pela artista israelita e pelo próprio governo para propaganda de estado, nomeadamente em cerimónias nas Nações Unidas.
Precedente da exclusão da Rússia e da Bielorrússia
Em 2021, a EBU excluiu as canções apresentadas pela Bielorrússia por considerar que se permitiam a leituras políticas e por, desse modo, desrespeitarem a independência política exigida às candidaturas de cada país e os regulamentos que proíbem a instrumentalização política do concurso.
No ano seguinte, após a invasão militar da Ucrânia por parte da Rússia, a EBU defendeu a permanência da Rússia na Eurovisão. Contudo, apenas um dia de pressão das restantes emissoras participantes, que ameaçaram boicotar o festival, bastou para que a EBU mudasse de posição. Citando “a preocupação de que, à luz da crise sem precedentes na Ucrânia, a inclusão de uma participação russa no concurso deste ano pudesse levar a competição a cair em descrédito”, o Conselho de Administração da EBU, decretou a exclusão das emissoras russas, na sequência de uma recomendação feita pelo Grupo de Referência do Festival Eurovisão da Canção e com base nos regulamentos do evento e nos valores da EBU.
A responsabilidade da RTP
A própria delegação da RTP presenciou situações de assédio por parte da delegação israelita. Nicolau Santos exigiu esclarecimentos sobre a censura a que a Eurovisão vetou a atuação da artista portuguesa na final e criticou veemente o “sistema anti-apupos” (usado para adicionar aplausos falsos à transmissão televisiva e assim abafar os apupos que se ouviram na Malmo Arena durante e após a actuação da representante israelita): “Para uma organização como a EBU, e para uma organização como a RTP e o serviço público de media da Europa que tem como bandeira o combate às fake news, à desinformação, à manipulação de informação, é inaceitável que seja possível” a “utilização de um método que altera a realidade“
A EBU recusa-se, contudo, a reconhecer a manipulação levada a cabo na transmissão televisiva e continua, no próprio site da Eurovisão, a disponibilizar, exclusivamente, imagens adulteradas da atuação da Iolanda na final.
Finalmente, recordamos que a total impunidade com que Israel comete os seus crimes já colocou em risco a vida de funcionários da RTP, nomeadamente a dos jornalistas Paulo Jerónimo e João Oliveira, que, nas suas próprias palavras, “escaparam por pouco aos tiros dirigidos contra o carro em que seguiam”, quando este foi deliberadamente atingido pelo exército israelita.
Se consideramos grave não ter havido da parte do Governo qualquer condenação deste episódio, a ausência de qualquer comunicado ou tomada de posição da própria RTP é motivo de perplexidade. Quão pouca consideração e solidariedade tem a RTP para com os seus trabalhadores?
