Anunciámos em Dezembro último a recusa do poeta Aharon Shabtai a participar no próximo Salão do Livro, que vai realizar-se em Paris de 14 a 19 de Março próximos, e que escolheu Israel como "convidado de honra", por ocasião do "60ª aniversário da sua existência". Esta operação de propaganda a favor dum país que multiplica os seus crimes de guerra, que condena todo um povo à fome e que o martiriza desde há décadas, suscita uma emoção aparentemente mais forte em Itália, em que a mesma operação está programada para a Primavera em Turim. O boicote organiza-se e várias personalidades de renome internacional explicam a sua necessidade. Segue-se a posição do escritor britânico Tariq Ali.
Por que não vou participar na Feira do Livro de Turim
Por Tariq Ali
Quando dei o meu acordo para participar na Feira do Livro de Turim, coisa que já tinha feito no passado, não imaginava que o "convidado de honra" seria Israel no seu 60º aniversário. Mas esse é também o 60º aniversário daquilo que os palestinianos designam como a « Nakba », a catástrofe, que lhes caiu em cima quando foram expulsos das suas aldeias, muitos deles foram mortos e muitas mulheres foram violadas por colonos. Tudo factos que já ninguém se atreve a contestar.
Por que é que a Feira do Livro de Turim não convida 30 escritores israelitas e 30 escritores palestinianos – ( e garanto-vos que eles existem e que são grandes poetas e grandes romancistas) ? Isso seria compreendido como um gesto positivo e pacífico, e aí poderia ter lugar um debate positivo, um pouco como uma versão literária do « Diwan » (a orquestra) de Daniel Barenboim, meio israelita, meio palestiniano.
Um gesto deste tipo teria reaproximado os povos. Mas não, os comissários culturais acham são mais espertos. Sucedeu-me noutras ocasiões discutir duramente com escritores israelitas que visitavam a feira e tê-lo-ia feito mais uma vez com prazer se as condições fossem outras.
O que decidiram fazer é uma infame provocação.
Nota-se que a cultura está cada vez mais ligadaa às prioridades políticas da rede Estados Unidos/União Europeia. O ocidente está cego aos sofrimentos dos palestinianos. A guerra israelita contra o Líbano, os relatos que chegam diaraimente do ghetto de Gaza, não comovem a Europa dos funcionários. Em França, como sabemos, é praticamente impossível criticar Israel. Na Alemanha também, por razões especiais. Seria uma tristeza que a Itália tomasse o mesmo caminho. Quantas vezes já sublinhámos que nada tem de anti-semita criticar a política colonial de Israel!
Aceitá-lo significaria tornarno-nos vítimas voluntárias da chantagem que o establishment israelita utiliza para reduzir ao silêncio os seus críticos. Há corajosos críticos israelitas como Aharon Shabtai, Amira Hass, Yitzhak Laor e outros, que não permitirão que as suas vozes sejam silenciadas desse modo. Shabtai recusou assistir a esta Feira.
Como poderia eu porceder doutro modo?
Uma coisa é apoiar o direito de Israel a existir, coisa que faço e sempre fiz. Mas daí a extrapolar que este direito à existência equivalha a um cheque em branco para Israel fazer o que quer aos que pretende expulsar e que trata como sub-humanos, isso é inaceitável.
Pessoalmente sou a favor de um só Estado Israel/Palestina em que todos os cidadãos sejam iguais. Dir-me-ão que se trata duma utopia Talvez, mas a longo prazo é a única solução. Devido aos temas dos meus romances, perguntaram-me muitas vezes (e mais recentemente em Madison, no Wisconsin) se seria possível recriar a época melhor, a de Al-Andalus e Sicília (NdT : (Al-Andalus : o conjunto das terras da Península Ibérica sob dominação muçulmana na Idade Média) quando três culturas coexistiram longamente. A minha resposta é sempre a mesma: o único lugar em que seria possível recriá-lo seria Israel/Palestina.
Vivemos no mundo dos dois pesos e duas medidas, mas não somos obrigados a aceitá-lo. Vemos por vezes casos de indivíduos ou de grupos a quem foi feito mal e que por sua vez o fazem a outros. Mas isto não justifica aquilo. Foi o anti-semitismo europeu que tolerou o judeocídio na Segunda Guerra Mundial e agora foram os palestinianos que se tornaram vítimas dele. Alguns israelitas são conscientes disso, mas preferem pensar noutra coisa. Muitos europeus encaram hoje os palestinianos e os muçulmanos como se encarava os judeus no passado. Ironia visível nos comentários da imprensa e nas reportagens da televisão. Em praticamente todos os países europeus. Que pena que a Feira do Livro de Turim tenha decidido apoiar os novos preconceitos que assolam o continente! Esperemos que este exemplo não seja seguido em mais lugar algum.