Ao Instituto de Ciências Sociais e Políticas
Exmos. Senhores
O Comité de Solidariedade com a Palestina vem protestar junto desse Instituto por um inquérito distribuído pela Profª Marina Pignatelli e destinado, segundo indica o seu título, a apurar “Percepções dos portugueses sobre os judeus e Israel”. O uso recorrente da expressão “conflito entre Israel e os palestinianos/Hamas” indica no entanto tratar-se de uma grosseira operação manipulatória, a coberto de um projecto supostamente científico.
A título de exemplo, diremos que o inquérito sugere respostas favoráveis à ideologia sionista e à banalização do genocídio em curso, nomeadamente na pergunta 9: “Gritar palavras de ordem como ‘Do rio ao mar, a Palestina será livre’ (chamada para a destruição de Israel); ‘Globalizar a Intifada’ (chamada à violência contra judeus) ou ‘Morte às IDF’ (Forças de Defesa Israelitas) é aceitável como parte de atividades de protesto?”
A Profª Pignatelli tem levado a cabo, ao longo dos últimos anos, uma campanha de agitação especialmente aguerrida em prol do argumentário sionista e por isso não deve surpreender-nos que tenha engendrado um tal projecto pseudo-científico.
Para além de afirmações publicadas no Observador, logo após o 7 de outubro, Pignatelli notabilizou-se em 28 de novembro de 2023 por um artigo em The Portuguese Jewish News que tinha como alvo o desiderato programático de uma Palestina laica, democrática e não-racista, tal como ele é formulado no slogan “Do rio até ao mar”. A publicação passaria despercebida entre tantas outras de igual teor, se não incluísse a sugestão sibilina de limitar a liberdade de expressão do slogan criticado (sugestão liberticida que também se encontra aliás na citada pergunta 9).
Se não nos pode surpreender que alguém comprometido com a propaganda genocida conceba o inquérito citado, já o envolvimento de um Instituto com o prestígio do vosso em semelhante manipulação é motivo da maior estupefacção.
Como membros da sociedade civil, solidária com as lutas e resistências do mundo, reconhecemos e defendemos a liberdade com a que deve contar a ciência e a academia para avançar na construção do conhecimento. Mas, do mesmo modo, somos críticos das maneiras que, noutras épocas, e nesta, a produção científica (neste caso, pseudo-científica) é ocupada para criar, justificar ou ocultar discursos e práticas contrárias ao humanismo e aos direitos humanos. A função da ciência e da academia não deveria ser outra que contribuir para o avanço dos valores que nos definem como humanidade e que hoje estão a ser minados em muitos recantos do mundo e que na Palestina se vêem com toda a clareza e crueldade. O negacionismo e o conhecimento académico são antinómicos. Se a própria academia se dotou de conceitos como genocídio, caracterizar com este conceito o que comete o governo sionista de Israel é um acto mínimo de coerência.
Com os melhores cumprimentos.
