As empresas e organismos públicos portugueses que participaram numa reunião sobre cibersegurança promovida há dias pela embaixada de Israel, incorrem em graves riscos se encetarem projetos com qualquer das 12 empresas israelitas presentes nesse encontro: riscos de reputação, riscos de segurança, e riscos jurídicos.
Riscos de reputação
Está a decorrer neste momento uma investigação do Tribunal Internacional de Justiça sobre crimes de Genocídio cometidos por Israel em Gaza. Milhares e milhares de crianças foram mortas em Gaza, e as organizações humanitárias denunciam que não entram medicamentos nem alimentos em Gaza há 9 semanas. As infraestruturas de água, eletricidade, comércio alimentar, educação e saúde foram quase totalmente destruídas.
Paralelamente, foi aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas uma resolução exigindo a Israel que termine a sua ocupação ilegal dos Territórios Palestinianos Ocupados, onde a violência contra os civis palestinianos é diária. Nessa resolução faz-se a seguinte exigência:
“A Assembleia instou os Estados a absterem-se de reconhecer a presença de Israel no Território como legal e a assegurarem-se de que não prestam ajuda ou assistência para manter a situação criada pela ocupação. Isto inclui tomar medidas para impedir que os seus cidadãos, empresas e entidades sob a sua jurisdição se envolvam em atividades que apoiem ou sustentem a ocupação de Israel.”
A colaboração de empresas e organismos públicos portugueses com empresas israelitas que estão intimamente envolvidas com a vigilância e repressão de palestinianos nos territórios ilegalmente ocupados por Israel na Cisjordânia, e crimes de guerra em Gaza, será um indício de cumplicidade para com um Estado genocida, e uma mancha na sua reputação.
Riscos de segurança
Em Israel, existe uma grande promiscuidade entre o exército, os serviços de espionagem e as empresas de cibersegurança. De acordo com estudos efetuados, cerca de 80 % dos fundadores e funcionários de empresas de cibersegurança provêm das agências de espionagem israelitas, nomeadamente das unidades 8200 e 81. A Unidade 8200 é responsável por operações clandestinas, recolha de informações (SIGINT) e descodificação de códigos, guerra cibernética, informações militares e vigilância. A Unidade 81 está vocacionada para a construção e fornecimento de tecnologias de ponta aos soldados de combate e espiões israelitas. Mais do que serem especialistas de cibersegurança, os quadros das empresas que participaram nesta reunião contribuíram, e contribuem, para um regime de controlo absoluto sobre a vida dos palestinianos, para ciberguerra, e assassínios determinados friamente via Inteligência Artificial, como revela o jornal britânico Guardian.
Os segredos das empresas e organismos públicos portugueses estarão completamente ao dispor destas empresas se as contratarem, o que será o maior risco de segurança em que poderão incorrer.
Riscos jurídicos
Face a estes riscos de segurança, a contratação de qualquer uma destas empresas poderá expor as empresas e organismos públicos portugueses a acusações de comprometimento dos dados por parte dos respetivos clientes ou cidadãos portugueses, com elevados riscos de multas pesadas por parte da Comissão Nacional de Proteção de Dados.
Conclusão
O Comité de Solidariedade com a Palestina contactou várias das empresas e organismos públicos portugueses presentes na citada reunião, entre as quais ANA – Aeroportos, CTT, REN, EDP, E-Redes, Águas de Portugal (AdP), Galp, Jerónimo Martins, Metropolitano, Caixa Geral de Depósitos, Polícia de Segurança Pública e Marinha.
Face aos riscos de reputação, de segurança e jurídicos, a todos foi pedido o comprometimento de que não terão nenhum relacionamento comercial com as empresas que participaram neste encontro, ou quaisquer outras cujos fundadores, executivos e funcionários tenham participado em crimes de guerra, genocídio ou ocupação ilegal, descritos pelo Tribunal Internacional de Justiça, pela Organização das Nações Unidas, e pelas várias organizações de Direitos Humanos.
