Exigimos que a RTP se comprometa a boicotar o Festival da Eurovisão – não participando e não o transmitindo – até Israel ser excluído do mesmo.
Até existir esse compromisso por parte da RTP, apelamos a que nenhum artista nem qualquer outro profissional se associe, concorra ou participe no Festival da Canção – festival organizado anualmente pela RTP, onde é seleccionado o representante português à Eurovisão.
A cumplicidade reiterada da European Broadcasting Union (EBU), organizadora do festival, e das emissoras públicas que dela fazem parte (como a RTP), tem permitido que Israel instrumentalize politicamente a Eurovisão para branquear crimes como o genocídio e a ocupação da Palestina.
Na última edição a ter lugar em Israel (2019), vários dos vídeos de promoção do evento e de apresentação dos artistas participantes foram filmados em territórios palestinianos e sírios ocupados – incluindo os Montes Golã e Jerusalém Oriental – e apresentados como sendo parte de Israel.
Além de transmitir, conscientemente, esta propaganda e desinformação a milhões de telespectadores em todo o mundo, a EBU também a incentivou, organizando visitas a territórios ocupados onde várias delegações, entre elas a da RTP, puderam gravar conteúdo promocional sobre “Israel”. Num desses vídeos, Carla Bugalho, chefe da delegação portuguesa e membro do Grupo de Referência da Eurovisão, responde a perguntas sobre a cultura israelita, numa peça intercalada por imagens da comitiva portuguesa nos territórios palestinianos ocupados de Jerusalém Oriental. Em 2025, Israel subiu ao palco da Eurovisão a 15 de maio, dia da Nakba.
Durante essa semana de Eurovisão, Israel assassinou mais de 500 pessoas palestinianas. Nas últimas semanas, Eslovénia, Irlanda, Espanha e Países Baixos comprometeram-se a boicotar a Eurovisão caso Israel participe. Outros, como a Islândia, não aderindo para já ao boicote, apoiam publicamente o afastamento desse país. Vários antigos participantes, incluindo Salvador Sobral e os dois últimos vencedores da Eurovisão, também já manifestaram o seu apoio à exclusão de Israel.
Procurando atenuar a crescente pressão e impedir que mais países anunciassem boicotes, a EBU propôs aos seus membros uma votação sobre o tema em assembleia geral extraordinária, que agendou para Novembro. Esta votação é, contudo, apenas mais uma manobra dilatória da EBU para permitir a continuação de Israel no festival. Contrariamente ao que a EBU e a RTP tentam veicular, não são necessários consensos nem votações em Assembleia Geral para excluir a emissora israelita do festival. Prova disso é que, após a invasão da Ucrânia em 2022, bastou um dia de contestação e ameaças de boicote de várias delegações para a EBU decidir excluir as emissoras Russas da Eurovisão.
Porque pedimos um boicote ao Festival da Canção e não apenas à Eurovisão?
A RTP nega “categoricamente” qualquer intenção de se juntar ao boicote à Eurovisão.
Boicotar o Festival da Canção é, por isso, a única forma de garantirmos que a RTP não irá participar na Eurovisão ao lado de Israel e, assim, continuar a ser cúmplice na normalização dos crimes israelitas.
A RTP tenciona ainda, alegadamente, “lavar as mãos” de qualquer responsabilidade e delegar nos músicos vencedores do Festival da Canção a decisão de participar ou não na Eurovisão. Ou seja, a RTP pretende, uma vez mais, colocar em cima dos artistas toda a pressão de uma decisão de boicote.
Exigimos também a não interferência política do governo português e do ministro Paulo Rangel na decisão da RTP. Cornald Maas, comentador neerlandês, utilizou recentemente a RTP como exemplo de como os poderes políticos estão a limitar as decisões das emissoras públicas. Não existe qualquer obrigação da RTP em participar na Eurovisão como, de resto, aconteceu em anos recentes.
A participação é uma escolha e, nas actuais circunstâncias, participar na Eurovisão implica a aceitação e a normalização de um genocídio. Queremos que tanto a Eurovisão como o Festival da Canção aconteçam, mas não às custas de um povo inteiro a ser massacrado. Nenhum festival de música pode ser mais importante do que parar um genocídio e uma limpeza étnica que dura há mais de 77 anos.
Apelamos, por isso, à consciência individual e coletiva de toda a comunidade artística portuguesa. Não permitam que a vossa música e o vosso trabalho sejam usados para branquear crimes contra a humanidade: boicotem o Festival da Canção!

